quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Copacabana

CRIANÇAS MOLAS
E A BOCA GRANDE
E O CANSAÇO DOS OLHOS.
E A PERNA TORTA COMO SE O PESO DO CORPO DEFORMANDO TUDO.
A MOCHILA ERA O CÃO.
REENCONTROU SEU AVÔ.
DE COSTAS O VELHINHO QUE ANDAVA DEVAGAR.
CABEÇA DE TARTARUGA.
DE FRENTE NÃO ERA NINGUEM.
ILUSTRE DESCONHECIDO.
E O ROUGE DO BATOM VERMELHO SANGUE
DA MULHER CHEIA DE CORES.
QUASE FOI ATROPELADA
MAS SEU SANTO ERA MAIS FORTE QUE A FUMAÇA DOS CAMINHÕES.
A FACA ESPETADA NO CORAÇÃO.
ELA ERA EVA-ANGÉLICA.
OS POMBOS CONFABULARAM: É MARIA DOS PILARES.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Donna Dollar

No chão a foice, ou seria o martelo?
Procuro os elos, procuro os elos.
Dentes verdes arreganhados, eles riram de mim.
Passarin, passarin.
Peixoto o gavião.
No passarão, no passarão.
O parquinho está vazio, as crianças desistiram.
Olho pro lado a ver se te a visto.
Inspir(a)ção.
O Boeing atravessa o céu com seus passos trôpegos.
A moto surge do vão, falo com o Lord, saúdo o abre-alas.
As serviçais de cá andam com roupas próprias.
Saravá meu pai!
Minha rua tem três nomes.
Se essa rua fosse minha,
Mas não dá pra ser mulher,
Quanto mais sem calcinha.
Me recuso a usar sutiã.
Carona só pra homi.
Me diga com quem andas te direi com quem és.
Olhou feio pra mim.
Slow down, slow down, grandparents are playing.
Area patrolled by American Bulldog.
Elas olham pra mim e eu não sei o que pensar.
Quisera eu ser dona do lar. 
Tem aquele Transformer, transforme.
E a gente tá tão habituado ao trabalho escravo,
Que eu procurei o caixa do motorista sem caixa.

Atenção área escolar, queria tanto ser uma dona do lar. 
Quatro Cinco Sete

NO CARRO FORMULA 1 DA VELOCIDADE ILIMITADA
ELE NÃO ME DEIXAVA NEM RESPIRAR.
TALVEZ FOSSE O DIA DA MORTE.
ANDAIMES ERGUIAM-SE ATÉ O CÉU.
NAS CURVAS SÓ DUAS RODAS.
E AOS TRANCOS E BARRANCOS,
NO MEIO DOS SOLAVANCOS
O MOTORISTA ASSASSINO SEGUIA SEU CAMINHO.
CORRE, CORRE CAVALINHO.
EU PENSAVA, SERÁ QUE UM DIA ?
SOBE A MANGUEIRA, ESGUICHA SANGUE, CHORA NENÉM.
O PÂNICO TOMOU CONTA DOS MEUS NERVOS, AÇO E PELE.
VIVER ERA UMA AVENTURA, CHEGUEI VIVA SIMPLESMENTE.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Brisa Verde

Hoje acordei e andando senti o vento
No meu rosto
Senti o cheiro
Do amanhecer
A brisa verde das árvores e o azul do anil
Senti a loira maquiada
E a pretinha serviçal
Eu moro no Leblon
Se tudo é poema, nem tudo é poema
Verde com laranja dá o que?
Um homem, meu bem, passeava trezentos e trinta e quatro mil cachorros
É sua profissão
Avistei um marinheiro, o papa e Nossa Senhora
Junto a ele o homem da pá
Eu moro em Ipanemá.
Hoje vim de gelado
Me leva até a Central
O nome dele é troncal
O nome vem dos escravos
Do tempo que eram amarrados
No poste
Pretoposte, pretoposte, pretoposte
Eu moro em Copacabana
Deixa vir, deixa vir, deixa vir meu devir
As palavras que me permeiam
A tinta que corre nas veias
É de respiração
Inspira
O buraco no estômago
É de 50 mendigos
A fome
Há vida depois do túnel?
Quando o vi eu sabia
O verde e o rosa
Mangueira
Estou aqui na plataforma da estação
Primeira
O morro veio me chamar




domingo, 11 de janeiro de 2015

Lullaby

Deitado no meio da tempestade, o gato sonha Lullaby,
Que milhares de pombos invadiram o planeta.
Que a barriga do velho se transformou no seu braço.
Que a Carmela Dutra era a rainha das putas
E andava sempre com a mão levantada, no seu passo saltitante.
Ali tudo caía.
Era gorda, bem gorda, os peitos esparramados pelas coxas.
No seu sexo escondia mamões.
Era o xodó do Méier e os rapazes ali, metiam suas rolas.
Pequeninas, bicavam de leve a fruta escondida, antes de voar.
Arrancavam pequenos bifes que ela trocava por cigarros.
Ali o calor era de rachar sempre.
Rachava tudo, paredes, àrvores, calçadas, calçados, testas, braços e bolas de gude.
Ali o Itamaraty ficava no 384.
Ali homens de olhar fundo triste e queixo lacrimejante.
Ali guardas de Nova York protegiam o Sr. Cabral de si mesmo.
Ali hare krishnas combinavam com seus fuscas laranjas.
Ali loucos eram livres nas praças, livres nas ruas.
Ali a Princesa Bebel chorava desesperada enquanto pedalava em direção ao Leme.
Ali a mulher barbada era roxa, tudo seu era roxo
E ela gostava de tomar porrada pra combinar com o resto.
Ali o mundo acabava assim.
tempo dois

quero ser ventre.
realização.
sei que não.
voltei.
e no caminho eterno do ir e vir.
revejo momentos.
pedaço da dor.
quem sou.
caminho.
contíguo.
contigo.
contínuo.
pedaços de chão.
pergunta.
a criança lá dentro sente o cheiro do pum?
tempo um

vida.
momento da linha infinita um.
vidas.
a cada momento um infinito um.
expandir o céu.
sou muitos.
um.
a selvageria apátrida.
lugar.
nem um.